segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

PARÁ, LEBLON, TEATRO E DALCÍDIO JURANDIR



Há muitos anos, aí pela década de 1970 (século passado, ai!), fui morar em Belém do Pará. Não por decisão planejada ou escolha própria, mas porque meu marido (século passado, eu ainda era casada) desempregou-se no Rio e foi trabalhar por lá. 

Naquela época, a isso que eu fiz chamava-se “acompanhar marido”.

O Pará era aquela distância, minha ida aquele desterro, “acompanhar marido” aquele atraso na vida, que as mulheres menos emocionalmente comprometidas e mais safas do que eu já haviam aprendido a evitar. De qualquer modo lá eu me fui, com dois filhos pequenos e todo o meu romantismo.


Minha bagagem de vida era um tantinho assim, mas utilizei-a como pude para me adaptar a um mundo inteiramente novo para mim. Lembro-me, então, de receber de uma amiga um livro de autor paraense, “para me ajudar a compreender melhor as coisas da terra”. O autor: Dalcídio Jurandir. O livro – Chove nos Campos de Cachoeira.


Ambientado em Cachoeira do Arari, Ilha de Marajó, Pará, o romance fala de um universo muito particular, em que figuram personagens de uma paisagem rural totalmente alheia a mim, aos quais o autor dá um tratamento tão universalmente humano em seu habitat tão tipicamente regional, que comecei a entender-me com isso de viver em uma cidade que não era “a minha”, e de alguma maneira deixei de perceber-me como uma estranha em terra alheia.


Agora fico sabendo do Festival Midrash de Teatro, que está acontecendo no Leblon, desde ontem, 12 de janeiro, até o dia 05 de fevereiro, com espetáculos de companhias cariocas de bairro, e de outras cidades, entre elas Belém do Pará, de onde vem “Solo de Marajó”, construído a partir de “Marajó”, outro livro de Dalcídio Jurandir.


Gosto da proposta do Festival, idealizado pelo rabino Nilton Bonder (autor de livros muito interessantes, não-ficção, entre eles “Alma Imoral”, sucesso nos palcos com a atriz Clarice Niskier). Gosto desta reunião de companhias de bairros de cidades diversas, e do diálogo que se pretende criar com as pessoas nas ruas do Leblon, com atores representando esquetes e convidando o público a participar.


Gosto também de haver um espetáculo paraense, e que seja uma transposição cênica de uma obra de Dalcídio Jurandir. Aliás, “Chove nos Campos de Cachoeira” foi recentemente reeditado pela 7Letras. Recomendo.


Para quem quiser saber mais e conhecer a programação do Festival Midrash de Teatro é só acessar: http://www.midrash.org.br/festival_teatro/01_2015_01_Midrash_janeiro_flyer%20virtual%20com%20links.htm
  

sábado, 20 de dezembro de 2014

Por que eu amo Manoel de Barros

"A expressão reta não sonha", ele escreveu, ele que "gostava das palavras quando elas perturbavam o sentido normal das ideias".

Encontrei-me com esse princípio por gosto de imaginar, e porque de uns tempos pra cá iniciei-me em olhar o real com vista cansada, modo "transver o mundo", que é o mesmo que fazer 
"terapia literária", e "consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos".

Também sei que "tem mais presença em mim o que me falta", pois o que me falta é tão físico que posso tocar sua presença sem alterar o vazio da ausência.

Se isso lhes parece "vadiações com as palavras", são. Porque é preciso "tirar da natureza as naturalidades" para viajar ao ínfimo dos sentidos e perceber a matéria sutil das mudanças, aquelas que o hábito de ver esquece de registrar.

"Os Outros: o melhor de mim sou Eles", uma construção indivisível de quem ama, pois quem ama exerce eus, e com pedaços de si "monta um ser atônito".

Estar assim atônita talvez me diplome em "ignorãças", pois "desaprender oito horas por dia ensina os princípios" para "apalpar as intimidades do mundo".

Admito: "eu sou culpada de mim". "Me procurei a vida inteira e não me achei", agora compartilho estar "preparada de conflitos". 

[Nota: Todas as frases entre aspas foram retiradas de poesias de Manoel de Barros, de "Livro Sobre Nada" (a maioria), e de "O Livro das Ignorãças".]