"A expressão reta não sonha", ele escreveu, ele que "gostava das palavras quando elas perturbavam o sentido normal das ideias".
Encontrei-me com esse princípio por gosto de imaginar, e porque de uns tempos pra cá iniciei-me em olhar o real com vista cansada, modo "transver o mundo", que é o mesmo que fazer
"terapia literária", e "consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos".
Também sei que "tem mais presença em mim o que me falta", pois o que me falta é tão físico que posso tocar sua presença sem alterar o vazio da ausência.
Se isso lhes parece "vadiações com as palavras", são. Porque é preciso "tirar da natureza as naturalidades" para viajar ao ínfimo dos sentidos e perceber a matéria sutil das mudanças, aquelas que o hábito de ver esquece de registrar.
"Os Outros: o melhor de mim sou Eles", uma construção indivisível de quem ama, pois quem ama exerce eus, e com pedaços de si "monta um ser atônito".
Estar assim atônita talvez me diplome em "ignorãças", pois "desaprender oito horas por dia ensina os princípios" para "apalpar as intimidades do mundo".
Admito: "eu sou culpada de mim". "Me procurei a vida inteira e não me achei", agora compartilho estar "preparada de conflitos".
[Nota: Todas as frases entre aspas foram retiradas de poesias de Manoel de Barros, de "Livro Sobre Nada" (a maioria), e de "O Livro das Ignorãças".]