Há muitos anos, aí pela década de 1970 (século
passado, ai!), fui morar em Belém do Pará. Não por decisão planejada ou escolha
própria, mas porque meu marido (século passado, eu ainda era casada)
desempregou-se no Rio e foi trabalhar por lá.
Naquela época, a isso que eu fiz
chamava-se “acompanhar marido”.
O Pará era aquela distância, minha ida aquele
desterro, “acompanhar marido” aquele atraso na vida, que as mulheres menos
emocionalmente comprometidas e mais safas do que eu já haviam aprendido a
evitar. De qualquer modo lá eu me fui, com dois filhos pequenos e todo o meu
romantismo.
Minha bagagem de vida era um tantinho assim, mas
utilizei-a como pude para me adaptar a um mundo inteiramente novo para mim.
Lembro-me, então, de receber de uma amiga um livro de autor paraense, “para me
ajudar a compreender melhor as coisas da terra”. O autor: Dalcídio Jurandir. O
livro – Chove nos Campos de Cachoeira.
Ambientado em Cachoeira do Arari, Ilha de Marajó,
Pará, o romance fala de um universo muito particular, em que figuram
personagens de uma paisagem rural totalmente alheia a mim, aos quais o autor dá
um tratamento tão universalmente humano em seu habitat tão tipicamente
regional, que comecei a entender-me com isso de viver em uma cidade que não era
“a minha”, e de alguma maneira deixei de perceber-me como uma estranha em terra
alheia.
Agora fico sabendo do Festival Midrash de Teatro, que
está acontecendo no Leblon, desde ontem, 12 de janeiro, até o dia 05 de
fevereiro, com espetáculos de companhias cariocas de bairro, e de outras
cidades, entre elas Belém do Pará, de onde vem “Solo de Marajó”,
construído a partir de “Marajó”, outro livro de Dalcídio Jurandir.
Gosto da proposta do Festival, idealizado pelo rabino
Nilton Bonder (autor de livros muito interessantes, não-ficção, entre eles “Alma
Imoral”, sucesso nos palcos com a atriz Clarice Niskier). Gosto desta reunião
de companhias de bairros de cidades diversas, e do diálogo que se pretende
criar com as pessoas nas ruas do Leblon, com atores representando esquetes e convidando o
público a participar.
Gosto também de haver um espetáculo paraense, e que
seja uma transposição cênica de uma obra de Dalcídio Jurandir. Aliás, “Chove
nos Campos de Cachoeira” foi recentemente reeditado pela 7Letras. Recomendo.
Para quem quiser saber mais e conhecer a programação
do Festival Midrash de Teatro é só acessar: http://www.midrash.org.br/festival_teatro/01_2015_01_Midrash_janeiro_flyer%20virtual%20com%20links.htm
Não se acanhe do seu romantismo, ainda hoje tem muita mulher que faz de "acompanhar marido" uma profissão. ;-)
ResponderExcluirNada contra, contanto que não se perca de si mesmo enquanto acompanha o outro. Vale tudo pra ser feliz, né não?